Jardim das Pedras

Jardim das Pedras é uma dimensão de experimentação estética que se define como tema, matéria e espaço de investigação e exposição. Lugar onde se permite a pesquisa, a reflexão e o pensamento através da observação e da especulação prático-teórica das relações formais de um objecto, de objectos entre si e destes com o espaço onde se integram e interagem. Espaço onde autores(s) / público(s) se situa(m) numa mesma realidade, experimentando e vivendo, através da Arte, da Ciência e da Cultura, modos de relação entre si e o contexto que os rodeia. Procurar “conquistar uma proporção justa na qual a harmonia do universo habita e se manifesta.” [1]

[1] ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, O Nu na Antiguidade Clássica, p. 29


A palavra Técnica provém do grego Téchné (arte, técnica, perícia). Téchné não constitui apenas a palavra do fazer na habilidade artesanal, mas também do fazer na grande Arte e das Belas-Artes. A Téchné pertence à pro-dução, à Poiesis, é, portanto, algo poético. Para Aristóteles a Techné é, em essência, um estado produtivo racionalizado, uma produção que é verdadeiramente fundamentada. De facto, toda a Arte preocupa-se em trazer algo à existência, e a prática de uma Arte é o estudo de como criar algo que é capaz de ser, e cuja causa está na produção e não no produto.

A técnica, enquanto essência, não é um simples meio. Heidegger define-a como uma forma de desencobrimento que, nesse sentido, nos remete à Poiesis – tornar uma coisa activa, efectiva, dar existência àquilo que antes não existia, trazer da ocultação para a luz. Quem participa da Poiesis fundadora do mundo é um artista.

Heidegger remete ainda a essência da técnica para o âmbito da composição – “A essência da técnica moderna repousa na com-posição. A com-posição pertence ao destino do desencobrimento.” [2] – integrando deste modo o talhe, que estaria originariamente ligado à Techné, com outras expressões escultóricas mais contemporâneas – a apropriação, a descontextualização, os ready made, as assemblage, os object trouvés – onde as faculdades intuitivas do artista na selecção e arranjo compositivo dos elementos escolhidos livremente surgem, acima de tudo. Já não há um fazer, mas um compor (ou o compor é também um fazer). “O decisivo da Téchné não reside, pois, no fazer e manusear, nem na aplicação de meios mas no desencobrimento mencionado. Técnica é uma forma de desencobrimento.” [3]

[2] HEIDEGGER, Martin, op cit, p. 18

[3] HEIDEGGER, Martin, A Questão da Técnica, in Ensaios e conferências, p. 28


A matéria é sólida, inerte, pesada, resistente e duradoura face à leve evanescência das ideias. A matéria é o lugar da possibilidade física de concretização, mas também o lugar da impossibilidade de transmutação das ideias em objecto. Hoje em dia pode-se dizer que os materiais disponíveis são todos aqueles que permitem uma conformação tridimensional, mas materiais são ainda as sensações, os sentimentos, as percepções e as experiências em geral que perspiram do material físico tridimensional e do seu potencial expressivo. A pedra ou a madeira revelam uma forma que já possuíam interiormente, o barro projecta a sua forma no espaço, o ferro desenvolve-se como um desenho a três dimensões. As serras, as colinas, as pedras, as árvores, os arbustos e os caminhos – as paisagens – existem na sua dimensão física e tornam-se também disponíveis para apropriações compositivas tanto no âmbito do fazer como no âmbito do desencobrimento e da visualidade pura, do dar a ver. As serras, as colinas, as pedras, as árvores, os arbustos e os caminhos – as paisagens – tornam-se então matéria plástica disponível para a Poiesis.

Não podemos considerar a matéria somente como agente, mas também como uma mediação. Cada matéria ou material tem as suas peculiaridades físicas, essencialidades próprias. Um autor não falseia a matéria com que trabalha, estabelece um diálogo formal. O artista descobre o significado do trabalho na matéria, mais do que infunde na matéria significância através da incorporação de uma intenção artística. O artista descobre o trabalho dentro do trabalho. Mais do que confrontar guia, mais do que forçar entende-a e, de algum modo, deixa-se conduzir também. Em Arte, a presença e relevância da matéria e a dialéctica que ela promove entre ideia e forma é contínua.


“Da mesma raiz de Techné é o verbo (em grego) que significa ‘deixar pronto, fazer, produzir por trabalho ou arte’. Designa, portanto, tanto uma técnica de produção ou manipulação, mas também uma arte enquanto ofício e bem assim uma actividade artística. Quem domina uma tal capacidade técnica é o perito. É assim que o sentido dos termos artífice, ou artesão, e artistas são especificações do sentido mais alargado de perito.” [4]

A Techné grega é, na sua tradução tradicional latina Ars, Arte. Mas o termo de origem latina está longe de dar conta da riqueza da especificidade semântica do termo grego, que tanto pode querer dizer uma actividade de produção artística como uma actividade de produção técnica. Em ambos os casos trata-se, contudo, de uma perícia.

“Nos dias de hoje, as mãos perderam a importância, já não existe esse conceito, outrora tão respeitado, da habilidade; agora, as coisas são feitas por máquinas, ou feitas a trouxe-mouxe, qualquer um as faz, pior ou melhor, (…). As mãos já não têm a importância que tiveram, houve um tempo em que eram sagradas: serviam para trabalhar, mas também benziam, consagravam, curavam pelo toque os enfermos.” [5]

A habilidade humana necessária para criar é controlada nos seus processos corporais e motivações, ou demonstrativamente corpórea nas suas habilidades e cinestesias, ou seja, habilidades que foram aprendidas e praticadas e que eventualmente se tornaram conscientes (inconscientes?) e instintivas. O saber/fazer manual, comporta uma necessidade profundamente humana que é a de pensar com as próprias mãos.

Em Arte a técnica, e o seu domínio, é também uma atitude estética. A técnica foca-se em padrões objectivos, na coisa em si mesma, explora as dimensões de perícia, compromisso e capacidade crítica, de um modo muito singular. Ainda que possa parecer ocupação grosseira e mecânica, é a partir do uso das ferramentas que se clarificam ideias e se estabelecem critérios. A técnica foca-se na relação íntima entre a mão e a cabeça.

É fundamental que a técnica não se sobreponha à forma – que é o mesmo que dizer que é fundamental que a técnica não se sobreponha ao conteúdo – e para isso é preciso praticar, muito, reencontrar o paradigma de ofício. “São necessárias dez mil horas de experiência para ‘produzir’ um mestre carpinteiro ou um músico” [6] A partir de um determinado nível, a técnica deixa de ser uma actividade mecânica, passa a ser um trabalho que está ligado à liberdade de experimentar.

Temos de pensar mais com nossas mãos já que é esse pensamento com as mãos que comunica não apenas qualquer intencionalidade percebida da parte do artista, mas um local ou espaço em que uma complementaridade múltipla e unificada de ideia e de matéria coincidam no potencial máximo do seu acontecimento. Trabalhar com as matérias-primas da imaginação (ideias, conceitos, esquemas) e aquelas da ordem material (pedra, metal, madeira, etc.), constitui para o artista e a obra um meio de estabelecer um lugar renovado e de encontro poiético.

[4] CAEIRO, António de Castro, Ética a Nicómano (tradução de) nota 17, p. 284

[5] CHIRBES, Rafael, Na Margem, pp. 421 e 422

[6] SENNET, Richard, p. 20


“A vida cultural da humanidade, na qual se inclui também a atividade filosófica, só é possível e só se desenvolve quando existe uma atenção profunda e contemplativa. A cultura pressupõe um espaço propiciador da atenção profunda. A atenção profunda tem vindo a ser cada vez mais suplantada por um tipo de atenção completamente diferente – a hiperatenção (hyperattention). Esta atenção dispersa ou distraída é caracterizada pela mudança brusca do foco da questão, pela alternância constante de tarefas, fontes de informação e processos. Uma vez que a sua tolerância ao tédio é bastante limitada, acaba por não deixar igualmente muito espaço livre àquele tédio profundo propiciador do processo criativo” [7]

Todo o trabalho, como a natureza, comporta solstícios e equinócios. É preciso reconciliarmo-nos com a dimensão cíclica, clássica e camponesa do Tempo. A cultura do progresso, vigente, da tradição judaico-cristã, que entende o Tempo como expansão, orientado para um futuro que tem de se reproduzir continuamente, fez perder as relações de simetria que existiam entre os Homens e entre os Homens e a Natureza. Assistimos, também, a um desfasamento entre o valor do trabalho e o valor das coisas que se produzem.

É preciso reconciliar pessoas, plantas e animais, encontrar a possibilidade de equilíbrio. Definir espaços de reflexão que retomem como princípios os valores clássicos. Associar com harmonia o corpo e a alma, intrínsecos ao nosso próprio estar no mundo. “Trata-se de decifrar a lei do corpo humano, e a proporção – a simetria – que esse corpo manifesta e que o insere na ordem do universo.” [8] Reconhecer como essencial um sistema dinâmico de introspecção/expressão que naturalmente acompanhará a renovação porque naturalmente encontramos outros caminhos e outras formas de crescer.

[7] HAN, Byung-Chul, A Sociedade do Cansaço, p. 26

[8] ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, op cit., p. 14

João Castro Silva, Director Artístico